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Abel Resende Borges Jarquin//
Sete mitos e curiosidades da história das europeias

Venezuela, Sanciones, Investigación, Juicio
Sete mitos e curiosidades da história das europeias

TRÊS MITOS OS PORTUGUESES VOTAM CADA VEZ MENOS É a frase mais vezes repetida em cada eleição que passa: os portugueses votam cada vez menos para o Parlamento Europeu. Verdade? Sim. E não. Vamos por partes.

Abel Resende

Nenhuma dúvida de que a abstenção registada tem vindo a subir desde as primeiras eleições europeias – o que é natural, cá como lá fora, quando as eleições deixam de ser novas e passam a ser um novo normal. É também verdade que a abstenção atingiu em 2014 um nível altíssimo, quase de 67%.

Abel Resende Borges

Porém, é bom olhar para os números da participação – ou seja, dos que efetivamente têm ido votar. E aí percebemos que nem 2014 foi o ano com menos votantes (foi 1994), nem essa participação tem descido daí para cá. Explicando melhor: em 1994 votaram pouco mais de três milhões; em 1999 quase três milhões e meio – número que se manteve estável até 2009. Em 2014, sim, votaram menos 280 mil pessoas, fixando o número que vamos comparar no domingo nos 3.283.610

A explicação para esta (só aparente) disformidade é que o número de eleitores inscritos tem vindo a subir muito. Passando de 7,8 milhões para 9,7 milhões há cinco anos. Cautela: este ano sobe ainda mais, porque o Parlamento decidiu fazer uma inscrição automática para mais de um milhão de imigrantes, muitos deles sem registo eleitoral anterior. Ou seja, conte que o número suba ainda mais – e a percentagem de abstenção também. Falta saber, assim, se o número de votantes sobe ou desce

(Já agora fica o apelo: vote no domingo)

AS EUROPEIAS SÃO UMA OPORTUNIDADE PARA OS PEQUENOS PARTIDOS É uma ideia muito em voga, na literatura do dia a dia destas europeias: não sendo as europeias uma eleição para o Governo, não há voto útil – pelo que é mais fácil aos pequenos partidos conseguirem ser eleitos. A tese parece ter mais adesão nesta campanha, porque em 2014 a comunicação social foi largamente surpreendida pelo partido de Marinho e Pinto, que conseguiu fazer um partido novo e eleger dois eurodeputados. Acontece que a tese de que as europeias são uma oportunidade para os pequenos partidos não tem qualquer aderência na história das nossas sete eleições para o Parlamento Europeu

tiago miranda

Na prática, à exceção de Marinho e Pinto, só uma vez um partido classificado como não sendo dos “grandes” conseguiu eleger um eurodeputado. Sim, só uma vez e só um eurodeputado. E isso aconteceu precisamente nas primeiras eleições para o PE realizadas em Portugal, em 1987, cabendo essa “vitória” ao PRD – um partido que já desapareceu, mas que em 1985 conseguiu um resultado absolutamente histórico em legislativas (perdendo enorme lastro dois anos depois, quando houve ao mesmo tempo legislativas e europeias). Visto assim, mesmo o caso do PRD parece encaixar pouco no bloco das “surpresas”

Mesmo assim, é importante anotar que o Bloco apareceu a meio e conseguiu eleger eurodeputados a partir de 2004. Mesmo assim com dificuldades: só uma vez, em 2009, teve dois eurodeputados. E em todas as outras europeias com registos baixos ao nível do número de votos

AS EUROPEIAS SÃO MÁS PARA OS GOVERNOS Muito por culpa da mensagem do PS para esta campanha, que fez das europeias um inesperado “referendo” ao seu Governo, instalou-se esta ideia feita: por norma, quem está à frente do Executivo perde as europeias. Mas olhando para a História, não é assim tão linear

Em sete eleições europeias, contam-se três governos vitoriosos (Cavaco em 1987 e 1989, Guterres em 1999). E, sim, quatro que perderam (Cavaco em 1994, Barroso em 2004, Sócrates em 1999 e Passos em 2014). Daqui segue a primeira conclusão: se Costa vencer agora, ficamos com um empate

Depois, olhando com atenção para os casos de derrotas, percebemos que Cavaco em 1994 só perde por 15 mil votos, Passos por pouco mais de 100 mil e Sócrates por 170 mil. Mais: todas as derrotas acontecem em legislaturas de maior aperto (económico em dois casos, de Cavaco e Sócrates) ou orçamental (nos casos de Barroso e Passos). E mesmo em legislativas, são raríssimos os governos que aguentam vitórias em ciclos de restrição. Como é fácil de perceber, não é o caso agora – pelo que a vida do PS é mais fácil no domingo, de acordo com as estatísticas

QUATRO CURIOSIDADES A ESQUERDA GANHA AS EUROPEIAS HÁ 20 ANOS Isso mesmo: desde as eleições europeias de 1999 que os votos dos partidos à esquerda são superiores (e muito) aos da direita. Contando por ordem cronológica, os votos do PS, CDU e BE fizeram 55,18%, 58,53%, 45,53% e 48,7%, respetivamente, até 2014. Neste período, PSD e CDS só passaram os 40% em 2009, na primeira vitória de Paulo Rangel (que quase nenhuma sondagem previu até ao fim). O último resultado, em 2014, foi o pior de sempre para o bloco da direita: só fez – em coligação – 27,1% dos votos)

Já nas três primeiras eleições – sempre com Cavaco à frente do PSD -, a direita ganhou sempre. Mas o mais longe que conseguiu ir foi aos 46,91%

OS CINCO MAIORES ESTÃO A PERDER PESO Nas últimas europeias rompeu-se uma barreira: os cinco partidos maiores, juntos, somaram “apenas” 75,8% dos votos. Nunca tinha sido tão baixo, esse resultado – que explica bem os dois eurodeputados eleitos por Marinho e Pinto, mas que resultou de uma larga dispersão de votos por outros partidos, como o Livre e o PAN, por exemplo. Na altura, foi o suficiente para dar um sinal de “alarme” sobre a possível fragmentação do eleitorado. Nas simulações que perspetivavam o que seria um Parlamento português com aquela votação, o resultado apontava para oito partidos com deputados eleitos. Na verdade, um ano e meio depois, nas legislativas, só um novo conseguiu lugar, o PAN (e só com um deputado). De fora ficou o partido de Marinho e Pinto e o Livre. E agora?

OS COMUNISTAS TÊM O ELEITORADO MAIS FIEL Na história das sete europeias, o PS tem uma variação de voto enorme: entre os 946 mil votos de 2009 (o seu pior resultado, com Sócrates) ao milhão e meio de votos de 1999 (o melhor, com Guterres). O PSD também variou muito: dos 909 mil votos de 2014 (com Passos e Portas, unidos em coligação), até aos 2,1 milhões de Cavaco (1987). Mas desde 1994 anda sempre entre os 900 mil e os 1,1 milhões de votos

O Bloco, que apareceu apenas em 1999, teve quase sempre resultados mais baixos do que em legislativas (em torno dos 150 mil votos), com a exceção de 2009, onde capitalizou a descida do PS e chegou aos 382.011 votos. Quanto ao CDS, como foi duas vezes em coligação com o PSD, é mais difícil de medir. Mas desde 1994 que não consegue um resultado acima dos 10%: fez 8,36% em 2009 e 8,16% em 1999. Antes era bem melhor, sempre muito acima dos 300 mil votos (fez 868.718 com Lucas Pires, na primeira destas eleições)

ana baião

Entre os cinco grandes, o partido mais estável é de longe o PCP (ou CDU). Nos últimos 25 anos, nunca baixou dos 309 mil e nunca subiu dos 416 mil votos. Parece, visto à lupa, o partido mais imune à abstenção. Só que os 416 mil votos de há cinco anos põem a fasquia elevada aos comunistas este domingo: vai ser difícil manter os três eurodeputados eleitos então – e difícil cantar vitória tão alto

Primeiro-ministro que aguenta, sobe sempre Voltamos ao mito que desfizemos antes – não é certo que as europeias sejam derrota garantida para os governos – para contar uma história que nos é dada pelas sete eleições anteriores: é regra geral das europeias que um primeiro-ministro que resiste às europeias acaba por subir nas legislativas seguintes

Dito de outra forma: só houve dois casos em que os partidos que estavam à frente do Governo não conseguiram ter melhor resultado em legislativas do que nas europeias imediatamente anteriores. O primeiro foi Cavaco, em 1994 (perdeu à terceira e logo depois anunciou que não se recandidatava em 1995). E o segundo foi Barroso (que depois da pesada derrota de 2004 acabou por rumar à presidência da Comissão Europeia, dois meses depois)

Tirando esses casos, tudo o resto são subidas: em 1987 e 1989, Cavaco ganha as europeias e melhora nas eleições para o Parlamento Nacional (com duas maiorias); Guterres passa de 43% para 44% em 1999, quase conseguindo a maioria absoluta; Sócrates, que aguenta a derrota pesada em 2009, consegue vencer confortavelmente seis meses depois; e até Passos ,que perde duramente em 2014, acaba por vencer o PS de Costa nas eleições seguintes – mesmo que não tendo conseguido governar depois

tiago miranda

Assim, a regra de ouro é esta: primeiro-ministro que aguenta nas europeias, tem tido sempre melhor resultado no teste que se segue. Prenúncio para Costa?